O Drama do ator Grande Otelo em 1949
# *DIÁRIO DA NOITE*
*Rio de Janeiro, Terça-feira, 16 de Novembro de 1949 — Ano XXV — Nº 7.420*
---
### CRÔNICA POLICIAL E SOCIAL
Lúcia Maria Pinheiro foi a primeira esposa do ator e humorista Grande Otelo
## *O DRAMA DE GRANDE OTELO: DA GLÓRIA DOS PALCOS À TRAGÉDIA DO QUARTO E COZINHA*
#### O "Moleque Inteligente", guardado por amigos em velha casa, chora o destino cruel de "Chuvisco" — A farsa do casamento, a regeneração pelo amor de pai e o desfecho de sangue que abalou a boemia carioca.
---
*REPORTAGEM DE CAPA*
*De vez em quando,* embora tenha os seus momentos de alegria, este ano ele está profundamente acabrunhado. Foi somente com a máxima dificuldade que a reportagem conseguiu chegar até ele, pois está sendo guardado por todos os seus amigos, que são muitos. A casa onde está, por assim dizer, escondido, é velha e as janelas dão para a rua. Diante da porta, atravancam de resto os lustrosos Cadillacs de buzina nova, os caminhões enormes e os carros de imprensa.
Não é preciso explicar quem é ele. Todos o conhecem, de nome ou pessoalmente. É o "Moleque Inteligente", o grande artista. Sua bocarra gigante, escancarada em risos, em uma careta feia que faz rir a tantos... Grande boêmio, cachaceiro que foi, é igual aos palhaços, os melhores artistas do mundo, que vivem para fazer rir. Andou por muitas farras, bebeu até cair na rua, cantava pela madrugada afora, mudando o seu espírito — ai, ai, era um pássaro amigo, igual ao que Deus criou!
### *A APARIÇÃO DA MULATA E O MILAGRE DE "CHUVISCO"*
Depois, apareceu a sua mulata, na inauguração da Confeitaria Tijuca. Era uma empregadinha de rosto humilde, toda iluminada de admiração pelo artista. Em 1948, Grande Otelo já estava célebre. Depois, viera Lúcia Maria na voragem do tempo e das pessoas. Ora, uma mulher sempre...
> *"Este é teu filho", disse ela.*
Grande Otelo olhou, olhou para o garotinho desdentado, de covinhas na face rutilante. Sentiu dentro de si uma pontada no coração. "Ora, um menino...", pensou maravilhado. Carne da sua carne, sangue do seu sangue de brasileiro sentimental! A ternura perseguiu-o, deixou-o igual a uma casa de açúcar, todo repleto de doçura. "Meu filho". Sem maiores filosofias, recebeu Lúcia Maria, sem investigar se o menino realmente seria seu. Recebeu os dois.
No quarto e cozinha onde moravam, havia pobreza. Sim, porque Grande Otelo vivia cheio de dívidas, sobrando do seu passado boêmio. Mas, com Lúcia Maria junto com "Chuvisco" a iluminar as noites, havia menos farras na vida de Sebastião Bernardes de Souza Prata.
"Meu filho", dizia ele aos outros, admirado e como que estendendo ao encontro dos amigos esta criança caída do céu. Jamais Grande Otelo soubera que tinha instintos paternais — agora sua bocarra de cômico ficava terna ao tocar na pele do menino. "Chuvisco" tornava-se o sol para onde virava e tornava a revirar este girassol que era a alma de Otelo.
+------------------------------------------+
| FOTO DE ARQUIVO |
|
|
| [ Lúcia, Grande Otelo e o pequeno ] |
| [ Chuvisco em dias felizes ] |
| |
| Legenda: O artista e o menino que, mesmo |
| não sendo de seu sangue, adotou como sol |
| de sua vida e razão de sua regeneração. |
+------------------------------------------+
### *A REGENERAÇÃO E O APARTAMENTO NA URCA*
Mas não era tão fácil deixar de lado a vida de antes. Apareciam colegas, a cachacinha ainda o chamava e as madrugadas tinham o seu jeito... Grande Otelo brigava com Maria Lúcia. Às vezes, chorava debaixo da janela dos vizinhos, grandes amigos, abraçando o pequeno: "Maria Lúcia quer me deixar. O que vou fazer eu, solto pelo mundo?". Depois, faziam as pazes. Maria Lúcia tinha empregada, lavadeira, "fazia" os cabelos e "pintava" as unhas. Maria Lúcia mudava...
Mandava "Chuvisco" miúdo, de apenas cinco anos, ao botequim além da esquina buscar guaraná abaixo da ladeira, onde os automóveis corriam velozes. "Ó, Maria Lúcia, cuidado com o Chuvisco!", pediam os outros, vendo o vultinho se afastar correndo, trazendo de volta o troco certo, rindo alegremente.
Depois, o amor de Grande Otelo pelo menino foi crescendo, envolvendo-o todo. Talvez desconfiasse já aí que a criança não era sua... mas que importava! Mesmo se fosse de outro, se Maria Lúcia — esta Gilda de cor marrom — tivesse mentido, o garoto agora era dele, só dele, do seu carinho!
E resolveu casar, para que "Chuvisco" tivesse realmente um pai. A madrinha foi Mme. de Vasconcelos Souto, dama de cabelos brancos, setenta e dois anos, mãe de um amigo seu, industriário. Casaram-se com doces e cerveja, e Otelo mudou repentinamente. Antes, era vagabundo, caía às vezes pela calçada; os empresários já não tinham fé, era "aquele Otelo malandro...". Mas, depois do casamento, mudou completamente.
Conseguiu um apartamento na Urca, de grande janela para o céu, mobiliou tudo, botou cortinados azuis na sala, cortinados verdes no quarto de dormir, botou eletrola e geladeira, flores no jarro transparente e brinquedos para o menino. Gastou uns 30 mil cruzeiros em tudo... "Aí Lúcia Maria, aí Chuvisco. Isto é para vocês".
Chegava logo depois dos espetáculos. Às segundas-feiras, quando não há teatro, levava a mulher ao cinema, telefonava muitas vezes: "Como vai você, nega?". "Chuvisco" entrou para o Instituto Brasil-Americano, pagava 400 cruzeiros de mensalidade. Há oito meses que Grande Otelo não botava um gole de álcool na boca... "Muito bem, moleque...", diziam os amigos. E ele retrucava orgulhoso: "Ora, agora sou pai de família".
### *A SOMBRA DA DESCONFIANÇA*
"Mme. Otelo" ia passear, ao cinema, saía muitas vezes deixando o garoto em casa, sozinho ou com a empregada. A este tempo, Otelo já sabia com certeza que o menino não era seu. Mas isso não importava. Era dele, dele, sim, todo dele, muito mais do que de Lúcia Maria...
E iam vivendo, há oito meses assim, sem brigas, até que um dia Otelo telefonou para casa numa hora desacostumada.
— "Mamãe não está. Foi à casa do seu Fulano. Ela sempre vai lá..." — disse "Chuvisco" ao pai.
Chegando em casa, Otelo perguntou à mulher, que encabulou: "Não é ninguém, não". Lá fora, na cozinha, Lúcia Maria pegou o pequeno e ameaçou-o: "Se mais uma vez falares novidades para teu pai, corto-te a língua com uma faca!". A denúncia foi feita pela empregada e por uma vendedora de prestações. Lúcia bateu no menino. Ele, coitadinho, não sabia de que se tratava. Chorou.
Depois disso, acabou-se a liberdade de Lúcia Maria. Antigamente ia à praia, ia onde quisesse. Foi a Caxambu em estação de águas, ia fazer visitas...agora, o "moleque" desconfiou e aparecia em todo lugar. Se ela fosse tomar banho de mar, daí a pouco lá estava Grande Otelo. Se fosse sentar na praça, lá estava ele.
### *AS ÚLTIMAS HORAS E OS DOIS TIROS NA MADRUGADA*
Na sexta-feira, tiveram uma forte briga. Depois tudo acalmou. Mas Grande Otelo já estava acabrunhado, triste. Domingo à noite, depois de muito tempo longe dos copos, ficou com os amigos, bebericando. Chegou em casa de madrugada, tonto, mas não bêbado. Foi recebido com fúria por Lúcia:
— "Vai-te embora, nego sem vergonha! Não quero mais saber de ti! Há muito que não me interessas... Agora, então, podes ir para o diabo! Vai-te para o inferno!"
Grande Otelo gritou, depois pediu calma... De manhã, ele continuou dormindo profundamente. Lúcia, a quem os amigos chamavam de "Gilda", fez menção de ir à feira. Antes, porém, a empregada teve de arrancar de sua mão um temível revólver Mauser, pois a patroa afirmava que queria suicidar-se.
A empregada, incauta, guardou a arma numa cesta de costuras de Lúcia. Esta saiu para a feira com a grande bolsa pendurada no braço. Voltou carregada: verduras, ovos, arroz, feijão e uma braçada de lírios.
— "Otelo ainda está dormindo?" — perguntou à empregada. Eram 10 e pouco da manhã.
Entrou no quarto, na ponta dos pés para não acordar o marido, e recuperou o revólver na cesta de costura. Em seguida, dirigiu-se ao quarto de "Chuvisco". No silêncio do apartamento, a empregada ainda escutou a voz infantil e apavorada do menino:
> *"Não me mata, mãezinha..."*
Logo depois, ressoaram dois tiros secos. Eram exatamente 10 horas e 30 minutos da manhã.
Muitos se perguntam nos cafés da cidade: "Mas como foi que Grande Otelo não acordou com os estampidos?". Seus amigos mais próximos respondem que o artista tem o sono tão pesado que pode ser carregado com cama e tudo enquanto dorme. Além disso, a arma utilizada era de pequeno calibre...
---
*[ LEIA A CONTINUAÇÃO DESTA COBERTURA EXCLUSIVA NA PÁGINA 5 ]*
Aqui está a reconstituição e diagramação de como esse texto se pareceria na página de um grande jornal diário (como o Diário da Noite ou o Correio da Manhã) no final da década de 1940.
A linguagem foi polida para o português atual, mas preservou-se o tom melodramático, o ritmo das colunas da época e os termos marcantes do texto original.



Nenhum comentário:
Postar um comentário